O moribundo e o perdão

Lá pelo fim da terrível Revolução, que causou tantas vítimas e derramou tanto sangue
inocente, um velho miserável, tão pobre quanto tinha sido mau, estava moribundo, num
imundo sótão de Paris. Acode à sua cabeceira um jovem sacerdote: ele o recebe com
grande temor, e, depois de angustiosos suspiros, começa a contar:


— Ouví-me, Padre, e Deus queira que possais não me amaldiçoar. Eu era criado
de uma família nobre, que me enchera de benefícios. Quando chegaram os dias terríveis
da Revolução, o meu coração ingrato correspondeu-lhes com a mais monstruosa traição.
Combinando com os revolucionários, revelei-lhes o esconderijo dos meus patrões,
acompanhei-os ao patíbulo e apoderei-me dos seus haveres, que esbanjei em pagodes. Ah,
Padre, eu sou um monstro. Veja-os, veja-os; são os meus patrões, tão amáveis, tão
bondosos… e, enquanto falava abriu um estojo que continha os retratos dos antigos amos.
Horror! O sacerdote reconheceu naqueles retratos seu pai e sua mãe…

Então a cena foi espantosa. O ministro de Deus, rijo, pálido, trêmulo, olhava
chorando para o assassino de sua família. O moribundo como um espectro, erguia-se na
cama, e mostrando o peito nu e descarnado, gritava: “Vingai-vos, vingai-vos!..
Mas o zeloso sacerdote lembrou-se de que, naquele momento, tão trágico para
ele, não era mais um homem, mas o representante de Jesus Cristo. Caindo em cima do
assassino, pôs-lhe o Crucifixo sobre os lábios para sufocar os gritos de desespero e:
— “Meu amigo, meu filho, meu irmão, disse, enganas-te. Eu sou Jesus Cristo, e
Jesus Cristo perdoa”.


E, sempre abraçando o pecador, absolve-o e consola-o, e o mendigo morre
perdoado e abençoado nos braços daquele cuja vida envenenara.
D. — Padre, depois de ouvir esses fatos, será que alguém ainda teme manifestar os
seus pecados ao confessor? Oh! a Confissão é realmente o sacramento do perdão e das
consolações. Eu gostaria de ter mil línguas para gritar para o mundo inteiro:
experimentem e vejam o quanto Jesus é bom.

(Trecho do Livro Confessai-vos bem)

Deus perdoa sempre

D. — Porém, se alguém reconhece a tempo as suas faltas e se confessa bem, Deus
perdoa sempre não é verdade, Padre?
M. — Sim, Deus perdoa sempre a quem volta arrependido. Você se lembra da
parábola do “Filho pródigo?”
D. — Ouvi-a mais de cem vezes e acho-a sempre lindíssima e. muito consoladora.
Conte-me, Padre.

Bartolomé Esteban Murillo (Spanish, 1617 – 1682 ), The Return of the Prodigal Son, 1667/1670, oil on canvas, Gift of the Avalon Foundation 1948.12.1


M. — O infeliz rapaz foge de casa, gasta todos os seus bens em excessos. Reduzido à
miséria extrema é obrigado a ser guardião de porcos, e reparte com os animais imundos os
restos de comida, para não morrer de fome. Por fim cansado de uma vida tão mesquinha,
cheio de remorso, resolve voltar para junto do pai. Vence a vergonha e decidido exclama:
“Surgam, et ibo ad patrem meus. — Erguer-me-ei irei para junto de meu pai”. De fato volta, e assim que chega atira-se aos pés do pai implorando: Pai, perdão, porque pequei.


O pobre pai, que desde o triste dia em que o filho partira, não tinha conhecido nem
paz nem sossego, não o repele: abre-lhe os braços, ergue-o, aperta-o contra o peito, beija-lhe
a fronte, cobre-o com o próprio manto para que ninguém o veja naquele estado. Ordena aos
servos: Corram, tragam as roupas mais belas para que eu vista de novo o meu filho; tragam
os anéis de ouro e os colares preciosos para que eu o enfeite. E vocês, diz a outros, matem a
vitela mais gorda e preparem um grande jantar. Convidem parentes e amigos, chamem
também os músicos; quero uma grande festa, porque meu filho que estava perdido voltou!
Poucas horas depois, já cada coisa está em ordem: cheia a sala, postas as mesas. O filho que,
pouco antes causava dó, aparece todo enfeitado, radiante de alegria, ao lado do pai. E,
sentado no lugar de honra, torna-se o “rei da festa”.


Você sabe quem é ele? É o pobre pecador, e seu pai é Jesus. Cada vez que o mais
infeliz pecador atira-se aos pés de Jesus e diz, arrependido: “Padre, perdoai-me porque
pequei” a mesma cena se repete. O confessor, que representa Jesus, ergue o infeliz; aperta-o
nos braços, dá-lhe o beijo do perdão, reveste-o da graça santificante, adorna-o com seus
conselhos, leva-o ao casamento de Jesus que é a Comunhão. Assim, o coitado que, poucos
minutos antes, era escravo do demônio e presa do inferno, torna-se o rei da festa porque,
como você sabe, Jesus mesmo disse: “Há mais regozijo no céu por um pecador que se
converte do que por noventa e nove justas que já vivem na graça de Deus!”
D. – Bendita seja a Confissão! Ela é realmente o sacramento do perdão e do consolo.

(Trecho retirado do Livro Confessai-vos Bem do Pe. LUIZ CHIAVARINO)